Impressões de Amsterdam em palavras.

Depois de fazer a seleção de fotos, resolvi falar um pouquinho do que não se pode ver nelas. Não se pode ver nelas o nosso, meu, deslumbramento com a cidade, por exemplo.

Nem sei como começou mas sempre que visito uma cidade que não conhecia antes, uma frase vem quase que automaticamente à minha boca: Aqui eu gostaria de morar. Ou a variante: Aqui eu não gostaria de morar. É até intrigante. A frase simplesmente vem, naturalmente, sem eu ter a intenção real de morar em alguma delas, sem nem sequer pensar a respeito. E em Amsterdã, já no primeiro dia, eu disse bem alto: Aqui eu gostaria de morar. Acho que é uma mistura do espaço físico e das pessoas que moram lá. Acho que também da maneira que se mora lá.

A primeira impressão que tive de Amsterdã já existia antes mesmo de irmos lá. Era uma pré-impressão de uma Amsterdã vista pelos olhos de mister P. muitos anos atrás. A impressão que ficou de uma primeira visita que ele fez ainda na juventude. Nesta Amsterdã, a característica mais marcante era o fato das pessoas não terem cortinas em suas janelas. A história associada a isto é que houve uma época que o Rei resolveu cobrar impostos para o uso de cortinas. Por causa disto as pessoas decidiram não ter cortinas e se acostumaram a viver uma vida bem normal aos olhos dos passantes. Na minha imaginação, e nas lembranças de Reiner, você passeava à noite pela cidade e podia ver as pessoas nas suas salas de estar, fazendo todo tipo de atividades. Lendo. Escrevendo. Passando roupa. E esta característica da cidade tinha tido uma impressão tão grande sobre mister P. pelo contraste com as cidades alemãs. Aqui todo mundo cerra suas janelas, na maioria das vezes com persianas externas, logo que a noite cai.

E realmente esta característica ainda permanece. Embora hoje muitas casas tenham suas cortinas, pudemos observar que muitas ainda não têm nenhuma e as pessoas desenvolvem em suas atividades usuais sem se importar com os transeuntes. Não tenho como fundamentar a explicação que mister P. recebeu quando esteve lá pela primeira vez. Mas este foi um aspecto que ainda nos fascinou. E estive pensando se não foi também por isto que não começou a história do bairro das luzes vermelhas, onde as prostitutas se exibem em vitrines para passantes, homens e mulheres, que olham curiosos para este exibição inusitada e estranha. Mas hoje em dia há cortinas lá, que são cerradas quando elas não estão à disposição.

Mas a impressão real que despertou aquela sensação: aqui eu gostaria de morar, veio ainda à luz do dia. Veio com a visão dos canais, com o contraste de ter uma vida de metrópole associada a um que de vida provinciana, entre o novo e o antigo que permanece bem preservado. Ao mesmo tempo em que há lojas de marcas famosas, o comércio de diamantes etc, há inúmeras, incontáveis mesmo, lojinhas simples, que se parecem muito com nossas quitandas de esquina do interior do Brasil. A impressão de não se perder no clichê: tudo para turismo e só para o turismo. Onde os moradores têm seus nichos, onde quase nunca um turista aparece. Tchá! mas nós, também turistas, nós fomos lá. E vimos. Como em um café que entramos num final de tarde. O local estava cheio. Só holandeses. Parecia uma festa. Fomos bem recebidos. Um senhor nos ofereceu lugar à sua mesa. E ele nos contou que ali todos se conheciam. Que eles se encontram ali diariamente no final do dia. E o ambiente: incrível. Um telefone antigo e uma placa onde se lê: ?Aqui quem quer o imposto é o Rei?, entre outras coisas.

Há muitos jovens na cidade. Ouve-se predominantemente o holandês. Claro que isto não teria me chamado tanto a atenção, caso eu não estivesse morando aqui na Alemanha, onde ouve-se muito outros idiomas que não o alemão nas ruas. Então o contraste é marcante. O idioma holandês também nos causou uma impressão interessante. Quando falado ele parece uma mistura de inglês e alemão. Todos os holandeses com quem interagimos não tinham nenhum problema em se comunicar conosco em alemão ou inglês. Podíamos escolher. E há mesmo muitas palavras que se parecem com o alemão. Logo no primeiro dia, diante dos inúmeros caminhos para bicicleta, o Reiner comentou: ?Aqui você tem que tomar mais cuidado para não ser atropelado por bicicletas do que pelos carros.? Ele falava e começava a atravessar um destes caminhos, depois de ter olhado para um dos lados e quase foi atropelado por um ciclista que vinha da direção contrária. O ciclista gritou, em holandês: Preste atenção! E a palavra, uma só, é bem parecida com a palavra alemã para se dizer isto. Passamos o tempo todo repetindo a palavra do jeito holandês. E as bicicletas. Um assunto à parte. Ouvimos que há mais bicicletas que moradores em Amsterdã. E depois de vermos muitas bicicletas enferrujando em abraços que pareciam eternos com as pontes da cidade, ficamos imaginando que não deve ser difícil acontecer de as pessoas morrerem e suas bicicletas nunca mais serem localizadas pelos seus parentes. Recentemente eles construíram um estacionamento para bicicletas perto da estação ferroviária, com quatro andares e capacidade para 4000 bicicletas. Realmente nunca vi tanta bicicleta quanto lá.

Descobri durante a estadia em Amsterdã que as casas tinham jardins na parte de trás, o que não é muito evidente à primeira vista. E claro, estando lá em hotel, como turistas, não se pode ver isto. Mas Stella esteve lá recentemente e ficou hospedada na casa da irmã. E ela mostra fotos do jardim. Esta ?visita? completou minha viagem à cidade.

Acrescentando:

Amsterdã em imagens

Cortamos Amsterdã de ponta a ponta a pé. Quatro dias, acho que dá pra dizer que vimos a cidade. Com seus contrastes. Nem vou escrever muito. Deixo aqui algumas impressões visuais.

Wir sind Amsterdam zu Fuß abgelaufen. Vier tage. Wir haben viele gesehen und es war sehr schön dort zu sein. Ich lasse hier ein paar Bilder.

PS: As fotos que menciona no blog da Stella estão em um post de maio de 2004.

Comentários

Manoel Carlos 28.05.2004 – 20:52

É bom você dizer que foram bem tratados apresentando-se como um casal alemão.

Se houver um povo do qual os holandeses não gostam, é exatamente o alemão.

As feridas da guerra ainda não se fecharam.

Pelo mesmo motivo, os holandeses simpatizam muito com os estadunidenses, considerados “libertadores”.


Stella 02.06.2005 – 04:56

Olá Rosangela,

A grande vantagem das bicicletas é que desde muito jovens as crianças holandesas tem uma independencia quase de adulto saem sozinhas , não precisam que ninguem as leve a casa de um amigo ou para a escola. [Os pais não se tornam motoristas].

Os ‘fietspadden’ estradas para bicicletas existempor toda Holanda. As fotos do jardim da minha irmã estão no mes de Maio, 5 , nas ‘Lembranças’.

Legal que voce gostou e lembrou.

Beijo Stella

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