Apanhando cerejas

Ontem aceitamos um convite para apanhar cerejas. Comprar as cerejas já colhidas? Não tem graça. As nossas cerejeiras no jardim deram frutos, mas os passarinhos colheram todos. Assim quando o Reiner chegou ontem do trabalho, fomos lá.Pensamos que íamos a pé portanto a Dona Toninha ficou em casa, já que se recupera de uma inflação no pé que requer cuidados. Mas quando passamos pelo nosso vizinho, o dono da árvore, para perguntar onde esta ficava, ele disse que ia conosco. Quando vimos, lá estava ele com eu tratorzinho em funcionamento. Pegamos carona, claro. E apanhamos as cerejas.

Reiner fez o serviço de coletor, eu de selecionadora. O vizinho ficou lá conversando conosco, ajudando a reposicionar a escada quando necessário. Contou, que depois da guerra ? ele tem 71 anos, contratava-se pessoas para a colheita das cerejas. O contratador dizia para o contratado: ?Cante!? e por uma razão muito simples. Enquanto se canta não se pode comer cerejas! Mas nós não cantamos nada. Comemos também.

Assim como para jabuticabas, a cereja mais gostosa é aquela saboreada à sombra do seu pé. Recém colhida. Trouxemos mais ou menos 15 quilos para casa. Dona Toninha ficou triste de escutar que fomos e voltamos de tratorzinho. Ela, que cresceu em fazendas no Brasil, adora um mato. E as plantações. Mas ela ainda vai lá. Quando o pé melhorar.

por RosangelaE em Na Alemanha

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Manoel Carlos 30.06.2004 – 12:18

Ninguém imagina que alguém viva na Alemanha, um dos mais industrializados países do Mundo, e tenha a vida telúrica que você tem.
Jaboticaba, no tronco, já colhi muito.
As fotos estão ótimas, mas a narrativa já deu água na boca.

ney alexandre 01.07.2004 – 17:56

Rô, que imagens! Deu vontade de correr e me juntar a vcs. Delícia!

Minas

Detalhes que moram na memória e retornam sempre.

por RosangelaE em Brasil | TrackBack (0)

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Voltando para Casa.

No ano passado, retornando de uma viagem de uma semana, me senti pela primeira vez voltando para casa. Agora, eu me sinto voltando para casa quando vejo o Teck (um castelo no alto de um pequeno monte aqui do lado de Dettingen). As paisagens de Minas me emocionam sem conta, mas agora, aqui é a minha casa. Onde está o meu querido, pra quem eu sempre volto sempre cheia de saudade. É até engraçado voltar e não esperar pela volta dele entre as nossas paredes e janelas. Ele é que é o viajador aqui de casa, sempre indo e vindo a trabalho. Muitas vezes vamos e voltamos juntos. Mas eu ir e ele ficar, raro. Desta vez fui lá nas nossas Minas só buscar a dona Toninha. E é muito gostoso vê-la olhar tudo detalhadamente, na casa, nas ruas, nas plantas. Tudo. Exatamente como eu achei que ia ser. Esta minha velhinha é uma curiosa nata. Uma gracinha.

por RosangelaE em Na Alemanha

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Roberta Febran 28.06.2004 – 19:26

Olá, moça! Obrigada pela visita e comentário lá no “Alma”, saiba que você será sempre muito bem-vinda. Eu tenho um fascínio enorme por montanhas… Gostei daqui, voltarei mais vezes. Grande abraço!

Reiner 06.07.2004 – 09:44

Te Amo minha querida.
Beijos quentes

Minas

Detalhes que moram na memória e retornam sempre.

por RosangelaE em Brasil

Theo

Nana, você é perfeita!
Não sou não. Tenho um monte defeitos.
Não tem nada.
Tenho sim!

Nana, eu vou dormir aqui na vovó enquanto você estiver aqui.

Nana, amanhã e depois (sábado e domingo) vou passar o dia intero com você. Onde você for eu vou.
Dito e feito.

Passou o final de semana. Menino teve febre. Cuidei.

Mais um dia. Aconteceram coisas. Menino indo e vindo, sempre por perto quando não estava na escola. Aconteceu também uma coisa chata. Ele lá, olhando arregalado. E calado.

Te decepcionei, querido? Eu não te falei? Não sou perfeita. Viu?
Vi!

Hoje foi dia de despedir no menino. Olhos cheios, soluços.
Não quero ir pra escola.
Conquistou ficar pra despedida na rodoviária.
Beijos.

Até a próxima querido.
Não demora, Nana.

Depois de amanhã é dia de pegar o avião de volta. Levando a vovó do menino.

PS: Comentários fechados em: 28 de junho de 2006 para evitar Spams. Quer fazer um comentário? Escreva-me um e-mail.

Obrigada: rosangela

por RosangelaE em Brasil |

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Manoel Carlos 25.06.2004 – 05:21

Tadinho… vai sonhar, vai chorar, vai recordar… Criança se apeg tnto e custa tanto a esquecer…

Campos lavados

Porque não encontro outra palavra para os campos da minha terra? Talvez porque esta amplidão, este vazio salpicado aqui e acolá com algumas árvores, os buritis demarcando a presença de água, mesmo quando não se vê, as arvores torcidas nas margens do asfalto, onde a vegetação original insiste em retornar sempre, os cupinzeiros no meio dos pastos onde ruminam vacas diligentes, os horizontes lá, bem distantes, bem marcados no céu, com suas nuvens brancas, um, depois outro e outro ipê roxo, quase sempre isolados no meio do verde de uma pequena mata preservada e os milhares, tudo eu comi com os olhos lavados, como sempre comi com os olhos esta paisagem, enquanto o ônibus percorria aqueles últimos 120 Km que me separaram da minha terra. Comi, correndo de uma lado para o outro do ônibus quase vazio. Só no último trecho, próximo à cidade, a paisagem não é mais aquela. Agora tomada por quilômetros e quilômetros e quilômetros de canaviais. Por um instante, pensei, não é justo. Roubaram-me os belos horizontes. Mas eu sei que as mudanças se processam. E provavelmente poucos notam esta transformação com pesar. E o que é justiça? A vegetação original daqui eu nunca vi. Esta transformação se processa há muito tempo, independente de mim. E a industria de boi de corte, que me dá amplitude dos campos e os horizontes, é mais justa com o homem da terra, com terra do homem, com a terra, que o cultivo de cana? O que é justo? Eu também mudei. É justo que eu volte e espere que tudo permaneça estático, parado no tempo? Não. Agora no terceiro dia aqui, penso agradecida na benção da eterna transformação. O relógio tiquetaqueia mudanças. Lentas, mas constantes. E eu fico feliz.

por RosangelaE em Brasil |

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Manoel Carlos 21.06.2004 – 12:09

De Minas à Amazônia, há buritis espalhados pelos campos; e o gado nelore também.
Resta saber se estas mudanças (gado ou monocultarua de soja ou cana) significam a exaustão dos recursos.
O equilíbrio só será obtido por meio de um modelo de sustentabilidade sócio-ambiental.
À parte disto, o reencontro com a paisagem, mesmo modificada, da terra natal é sempre enternecedor.

A rua dezesseis.

Eu nasci na rua dezesseis, muito tempo atrás. Minha mãe teve uma gravidez difícil. ?Você não pode mais ter filhos,? diziam os médicos. ?Esta gravidez é muito arriscada, tem que interromper.? Minha mãe não ouviu ninguém. Era obrigação religiosa ter filhos e aceita-los quando viessem. E eu vim. Nasci na rua dezesseis, no quarto dos meus pais. Minha mãe foi assistida por um médico e uma prima chegada. O meu pai andava sem trégua pela sala. Os três filhos mais velhos foram mandados para passear com a babá. Era uma manhã clara de sábado em um mês de dezembro. Tocava uma música no rádio, minha mãe se lembra bem: ?Hoje eu quero a rosa mais linda que houver e primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem.? E tirou depois satisfação com meu pai: ?Eu lá no meio das dores e você todo faceiro escutando rádio!? Depois ficou bem explicado que a música tocava no rádio do vizinho.

Quando eu era criança, eu ficava encantada de olhar o fim da rua. Sempre me parecia que andando naquela direção eu ganhava o mundo. Talvez porque era de lá que vinham as chuvas. Eu adorava esperar a chuva descer a rua, escurecendo tudo. Fiquei maior e tinha uma saudade indefinível de sair andando em direção aos campos, perambular. Mas não. Eu era mulher. E andar sozinho por aí era perigoso. Eu subia no alto de uma mangueira no fundo do quintal, porque bem lá do alto eu podia ver a única serra da região. E eu amava aquela serra. A visão daquela serra, sempre meio azulada, no meio de um vasto e amplo céu no horizonte. A serra só pode ser visualizada de alguns pontos da cidade. Eu os sabia todos. Mas eu nunca fui lá.

Só uma única vez empreendi um pequeno piquenique na orla da cidade. Mas então já era adolescente e fui acompanhada por minha amiga de sempre, a Telúrica. E pelos meus dois irmãos gêmeos mais jovens. Nunca esqueço de uma foto, que perdi, em que um raio de luz incide em uma pequena garrafa de plástico levada a tiracolo pela Telúrica. Capturamos um raio de sol, gostávamos de dizer. Logo depois disto, tanto eu quanto ela ganhamos o mundo. Cada uma seguindo por caminhos diferentes.

Os caminhos que segui se distanciaram sempre, cada vez mais, da rua dezesseis. Mas esta rua sempre foi o meu ponto de referencia no mundo. Lembro da intensidade com que esperava cada curva do caminho na primeira vez que permaneci um ano inteiro sem retornar lá. Eu não dormi nada naquela viagem noturna. Só esperando ver a serra, o contorno da cidade no horizonte, com os primeiros raios de sol da manhã. E eu vi tudo, cada curva do caminho, o sol nascendo devagar e tirando o escuro do mundo, colorindo os serrados, bem devagar. Esta é minha lembrança mais intensa, quando penso em saudade da pátria. Porque a rua dezesseis é a minha prima pátria.

Pois hoje começo de novo o longo caminho de retorno a esta pátria. Esperar ver de novo a tão amada serra no horizonte, onde nunca fui. Chegar em uma casa onde pela primeira vez não encontrarei mais meu pai sentado em sua cadeira na varanda. Hoje começa de novo. A expectativa dos encontros. Tudo de novo. Sempre de modo novo.

por RosangelaE em Desnovelando.

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Manoel Carlos 15.06.2004 – 12:27

“Voltar, quase sempre, é partir para um outro lugar” – Paulinho da Viola.

Fer 17.06.2004 – 03:45

Texto LINDISSIMO, Rosangela!
Que bom que esta de casa nova. Definitiva? ;-)

beijao!


tel 01.07.2004 – 00:26

Rô, há dias li esta página, desde que você a postou. Mas fiquei com um nó na garganta e na ponta dos dedos, não conseguia escrever nada. Continuo com o mesmo nó de antes, mas feliz de ver que você já saiu a apanhar cerejas e também feliz por saber que você se sente voltando pra casa ao ver “sua serra alemã”, tão diferente da mineira em tamanho e forma, mas ainda assim, sua referência.
Mas queria te dizer que ainda vou achar aquela foto, ou o negativo dela, e mandar fazer uma cópia pra você do raio de sol capturado. Mas também pode ser que as fotos perdidas se encaixem nas dos versos esquecidos como na canção que Bola de Nieve cantava “Seré en tu vida lo mejor, de la neblina del ayer, cuando me llegues a olvidar, como es mejor el verso aquel que no podemos recordar…”
Dê um beijão na Dona Toninha e no Mister P. Saudades.
tel