A rua dezesseis.

Eu nasci na rua dezesseis, muito tempo atrás. Minha mãe teve uma gravidez difícil. ?Você não pode mais ter filhos,? diziam os médicos. ?Esta gravidez é muito arriscada, tem que interromper.? Minha mãe não ouviu ninguém. Era obrigação religiosa ter filhos e aceita-los quando viessem. E eu vim. Nasci na rua dezesseis, no quarto dos meus pais. Minha mãe foi assistida por um médico e uma prima chegada. O meu pai andava sem trégua pela sala. Os três filhos mais velhos foram mandados para passear com a babá. Era uma manhã clara de sábado em um mês de dezembro. Tocava uma música no rádio, minha mãe se lembra bem: ?Hoje eu quero a rosa mais linda que houver e primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem.? E tirou depois satisfação com meu pai: ?Eu lá no meio das dores e você todo faceiro escutando rádio!? Depois ficou bem explicado que a música tocava no rádio do vizinho.

Quando eu era criança, eu ficava encantada de olhar o fim da rua. Sempre me parecia que andando naquela direção eu ganhava o mundo. Talvez porque era de lá que vinham as chuvas. Eu adorava esperar a chuva descer a rua, escurecendo tudo. Fiquei maior e tinha uma saudade indefinível de sair andando em direção aos campos, perambular. Mas não. Eu era mulher. E andar sozinho por aí era perigoso. Eu subia no alto de uma mangueira no fundo do quintal, porque bem lá do alto eu podia ver a única serra da região. E eu amava aquela serra. A visão daquela serra, sempre meio azulada, no meio de um vasto e amplo céu no horizonte. A serra só pode ser visualizada de alguns pontos da cidade. Eu os sabia todos. Mas eu nunca fui lá.

Só uma única vez empreendi um pequeno piquenique na orla da cidade. Mas então já era adolescente e fui acompanhada por minha amiga de sempre, a Telúrica. E pelos meus dois irmãos gêmeos mais jovens. Nunca esqueço de uma foto, que perdi, em que um raio de luz incide em uma pequena garrafa de plástico levada a tiracolo pela Telúrica. Capturamos um raio de sol, gostávamos de dizer. Logo depois disto, tanto eu quanto ela ganhamos o mundo. Cada uma seguindo por caminhos diferentes.

Os caminhos que segui se distanciaram sempre, cada vez mais, da rua dezesseis. Mas esta rua sempre foi o meu ponto de referencia no mundo. Lembro da intensidade com que esperava cada curva do caminho na primeira vez que permaneci um ano inteiro sem retornar lá. Eu não dormi nada naquela viagem noturna. Só esperando ver a serra, o contorno da cidade no horizonte, com os primeiros raios de sol da manhã. E eu vi tudo, cada curva do caminho, o sol nascendo devagar e tirando o escuro do mundo, colorindo os serrados, bem devagar. Esta é minha lembrança mais intensa, quando penso em saudade da pátria. Porque a rua dezesseis é a minha prima pátria.

Pois hoje começo de novo o longo caminho de retorno a esta pátria. Esperar ver de novo a tão amada serra no horizonte, onde nunca fui. Chegar em uma casa onde pela primeira vez não encontrarei mais meu pai sentado em sua cadeira na varanda. Hoje começa de novo. A expectativa dos encontros. Tudo de novo. Sempre de modo novo.

por RosangelaE em Desnovelando.

Comentários

Manoel Carlos 15.06.2004 – 12:27

“Voltar, quase sempre, é partir para um outro lugar” – Paulinho da Viola.

Fer 17.06.2004 – 03:45

Texto LINDISSIMO, Rosangela!
Que bom que esta de casa nova. Definitiva? ;-)

beijao!


tel 01.07.2004 – 00:26

Rô, há dias li esta página, desde que você a postou. Mas fiquei com um nó na garganta e na ponta dos dedos, não conseguia escrever nada. Continuo com o mesmo nó de antes, mas feliz de ver que você já saiu a apanhar cerejas e também feliz por saber que você se sente voltando pra casa ao ver “sua serra alemã”, tão diferente da mineira em tamanho e forma, mas ainda assim, sua referência.
Mas queria te dizer que ainda vou achar aquela foto, ou o negativo dela, e mandar fazer uma cópia pra você do raio de sol capturado. Mas também pode ser que as fotos perdidas se encaixem nas dos versos esquecidos como na canção que Bola de Nieve cantava “Seré en tu vida lo mejor, de la neblina del ayer, cuando me llegues a olvidar, como es mejor el verso aquel que no podemos recordar…”
Dê um beijão na Dona Toninha e no Mister P. Saudades.
tel
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