Letícia

Conheci Letícia ontem. Já sabia dela¸ pensava nela com carinho, mas conhecer mesmo, eu a conheci ontem.Logo de cara, no prólogo, me avisam: ?…ela nunca foi mulher de excessivas certezas? e eu já sabia: então temos muito em comum.

Quando ela conta sobre a sua primeira lembrança infantil, às sombras das mangueiras, renasce em minha a minha primeira lembrança de infância: eu sentada na cama de meus pais, lá fora um dia ensolarado e lindo. Eu de repente levanto o olhar, motivada por um som estranho e vejo que minha mãe chora. Lembro, sinto ainda, primeiro a minha surpresa, segundo a minha vontade de protege-la.

Sempre que recordo esta cena, penso: Neste momento nasceu minha responsabilidade com ela, minha mãe. Este sentimento de que eu, na verdade, eu, era mãe da minha mãe. E de tantos outros. Eu nunca tive filhos, mas este sentimento de ser mãe dos outros, sempre foi uma constante na minha vida.

Para minha surpresa logo a seguir ela, Letícia, conta como descobriu este sentimento de ser ?mãe de todos? em si mesma… Eu estaco: inacreditável…

Só estas coincidências? Não. Eu tirei o meu primeiro nódulo no seio em 82. Era benigno. Dois anos depois ressurgiu outro no mesmo lugar. Foi retirado. Era, provavelmente, só o tecido cicatrizante que simulava um nódulo. Tudo normal. No início dos anos 90, lá estava de novo, um nódulo no mesmo lugar. Sobre a cicatriz. No seio direito. Era só um nódulo de líquido que foi drenado e pronto. No ano passado, depois de alguns anos de desatenção com meus seios, descubro que estava/estou com os dois seios coalhados de nódulos. Os exames indicam que está tudo dentro da normalidade. Nada a fazer além de prestar atenção. E eu vivo, como Letícia cita, ?no limite tênue entre o normal e o anormal?.

Letícia não vive mais no limite. Ela já sabe. Há muito tempo…

Tive também motivo de me sentir feliz. Aliás por um motivo do qual sempre me envergonhei: por deixar que a raiva às vezes extravasasse em minhas palavras e atitudes… Mas ouvindo-a falar, fico pensando se assim não expulsei do meu corpo o que provoca as mutações celulares malignas.. Eu sempre achei que muitas pessoas têm câncer por pura tristeza. Mas por raiva… Acho que nunca tinha ouvido falar nisto. Nem pensado nisto. Eu sempre lutei pra banir a tristeza do meu corpo. Mas sempre quis conter a raiva. Embora estas duas emoções sejam tão irmãs… Pra mim, em mim, no meu corpo, elas sempre andaram de mãos dadas… O que eu quis por tanto tempo ignorar.

E eu estou apenas no segundo capítulo! Não porque não tenha vontade de devorar o livro… Não! Mas o livro define este ritmo lento de leitura, uma vez que leio, lembra de mim mesma. Paro. Recordo. Releio. Volto algumas páginas… O prólogo já me avisara que provavelmente seria assim. E podem ter certeza, com os olhos úmidos, sempre.

Não sei se será assim para todos, mas ouvir Letícia me remete a mim mesma. E, embora ainda esteja no início da leitura, reforça em mim esta vontade de viver intensamente cada instante.

Obrigada Letícia…

-x-

Para conhecer melhor Letícia, é só ler o livro dela:

Sala de Espera, Maria Letícia Fonseca Barreto, Belo Horizonte, Casa de Minas, 2004
ISBN: 85-904539-1-x

Editado em 28-09-2007:

Leia a última entrevista dela aqui.

Leia também um pedaço da sua tese aqui.

Artigo originalmente publicado aqui.

Comentários

Olga L. Anglas R. Tarumoto 26.05.2005 – 01:10

Oi menina!!! pode ter certeza que todos os dias estou com você!!!
Saudades … muitas saudades!!!
Abraços ao Reiner. Beijos. Olga.

telma 26.05.2005 – 14:47

Belíssima crônica, Rô, linda mesmo. Ao relê-la, percebi que você deu uma pequena pista de que falava de um livro, logo no começo, ao falar em “prólogo”. Mas não vi assim. Fui imaginando você conversando com Letícia, num jardim, sentadas num banco sob uma árvore, ela te contando coisas da vida dela, e você a lhe contar da sua.E a gente vai conhecendo sua beleza cada vez mais, ao ver a lindeza de seus sentimentos.
Beijo grande

Alice 27.05.2005 – 03:13

Naninha,
Não consegui ficar longe e vim prá perto da Leticia. Na verdade meu avô Zequinha tacou um “c” para diferenciá-la, ela é Lecticia. De alegria (Laetitia) ela se transformou “naquela que lê”. Amanhã vou mostrar seu canto verde prá ela. Obrigada pelas sempre belas palavras.
Com carinho,

Manoel Carlos 28.05.2005 – 14:57

São leituras essenciais as que promovem o encontro com o próprio eu.
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One thought on “Letícia

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