Barulhos noturnos.

A primeira noite foi difícil. Eu estranhei os barulhos da noite e não dormi nada. Quando peguei no sono o galo começou a cantar. Cantou a cada hora a partir das três. Uma das vezes que ele cantou, eu me levantei pra ir ao banheiro. Um pardal entrou pela janela e ficou voando, atordoado, sem conseguir sair pelos vitrôs estreitos das duas janelas do banheiro. Coitado do pardalzinho. Vai que a luz do banheiro atrapalhou o sono dele também. Mas o que fazer com um pardal preso no banheiro no meio da noite? Ele pousou na divisória do box do chuveiro, eu sai e apaguei a luz. “Quem sabe ele dorme até de manhã?”, pensei. Acho que ele dormiu mesmo, pois ficou bem quietinho. Porém, eu não dormi. Quando “precisei” ir de novo ao banheiro, pensei duas vezes, adiei. Mas não tinha jeito, tive de ir lá de novo. Acabei tendo de abrir a janela do cômodo vizinho para deixar o pequeno sair e quase acordei a casa toda. Minha mãe acordou e veio me ajudar. Às seis horas começou as gritarias dos recrutas do “Tiro de Guerra” na esquina da quadra. E o toque de tambores. Às sete ou oito horas, o apito da fabrica tocou. Desisti e levantei. Passei o dia meio zambe zambe, mas esta noite dormi bem. Não escutei o galo nenhuma vez. Acordei só com os tambores do “Tiro de Guerra”.

Havia dois anos que eu não dormia aqui. Os barulhos noturnos da casa mudaram e eu estou acostumada com outros barulhos. Minha mãe, que fica procurando as razões para tudo – para ela todas as coisas são misteriosas, ficou querendo entender porque o passarinho entrou no banheiro na minha primeira noite na casa dela. “Isto nunca aconteceu antes”, afirmou hoje de novo, toda deslumbre. Se há uma explicação eu não sei. Às vezes há que se aceitar simplesmente que as coisas são. Que acontecem. Se não entendemos o sentido delas, basta aceitar que elas são. Que acontecem. E que às vezes não têm relação direta nenhuma conosco. Não são nenhum sinal. Coitado do pardalzinho… Vai que a luz do banheiro, acesa tantas vezes durante a noite, tenha simplesmente atrapalhado o sono dele. E só.

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